Carol Nunes, pioneira trans no automobilismo brasileiro, acelera no Track Day & Time Attack com o Ford Fusion de competição que desenvolveu sozinha.

No próximo dia 22 de julho, o asfalto do Autódromo de Interlagos, em São Paulo, será palco de mais do que apenas um evento de velocidade. Ali, onde tantos sonham em acelerar ao menos uma vez, Carol Nunes — a primeira mulher trans a competir oficialmente no automobilismo brasileiro — voltará às pistas com seu icônico Ford Fusion de corrida, o único do tipo em competição no mundo.

O retorno acontecerá durante o Track Day & Time Attack, um evento que mistura adrenalina, precisão e liberdade técnica. Para Carol, esse momento é mais do que uma participação — é um novo capítulo de uma história construída com garra, ousadia e inovação, dentro e fora dos boxes.

“Muitos fãs de automobilismo sonham um dia acelerar em Interlagos e acabam realizando esse sonho durante os Track Days com seus carros pessoais. E é só então que ousam dar o segundo passo: passar a competir em pista. Foi assim comigo também. Agora, reestrear meu carro ali é muito simbólico”, diz Carol.


Uma construção fora dos padrões — e das fábricas

 

O carro com que Carol competirá não saiu pronto de uma oficina especializada ou de um departamento de engenharia de uma montadora. Ao contrário: nasceu em sua garagem, peça por peça, com base em estudo, erro, tentativa e criatividade. Sem formação técnica, ela mesma projetou e executou as transformações no sedã da Ford — carro que jamais teve uma versão oficial de corrida.

Hoje, o Ford Fusion de Carol ostenta suspensão retrabalhada, reforços estruturais, aerodinâmica personalizada e eletrônica adaptada — tudo feito por ela, sem apoio técnico institucional. Mais do que um carro, é uma extensão do seu pensamento.

“Acredito que vai ser extremamente importante e produtivo. O carro foi todo reconstruído e modificado de 2023 para cá, e esse vai ser o grande teste e reestreia do carro nas pistas. Estou bem empolgada e apreensiva, mas com grandes expectativas”, afirma.

O carro se tornou, ao mesmo tempo, sua marca registrada é um símbolo de como o automobilismo independente pode desafiar os modelos tradicionais de acesso ao esporte.

Quebrando barreiras com velocidade


Natural de São Paulo, aos 32 anos, Carol já percorreu um trajeto inusitado até o cockpit. Desde a infância, mostrava paixão por carros e tecnologia. Seus primeiros “protótipos” foram carrinhos de controle remoto, modificados com peças de outros brinquedos e luzes improvisadas. A vontade de competir cresceu junto com a habilidade, mas o caminho foi árduo, ainda mais sendo uma mulher trans num dos esportes mais conservadores em estrutura.

Ainda assim, construiu uma carreira de resultados e consistência:

  • Vice-campeã da Subida de Montanha em Monte Alegre do Sul (2020) e em São Bento do Sapucaí (2021)
  • Campeã da Superliga Desportiva de Velocidade (2021)
  • Participação na Copa Shell HB20 (2022)
  • Campeã do AKSP (Automobilismo Kart São Paulo), em Interlagos (2023)
  • Presença contínua em Track Days e provas de Time Attack desde 2018

Entre cada conquista, Carol foi desmontando estereótipos e provando que a performance não está condicionada ao gênero, ou a grandes estruturas.

Empreendedora, autodidata e referência


Além das pistas, Carol também comanda um negócio voltado ao desenvolvimento de kits aerodinâmicos para carros esportivos e de competição — um nicho de mercado em ascensão, que segundo estudo da Data Bridge Market Research, deve crescer globalmente 4,45% ao ano até 2029. Os projetos são desenhados, testados e fabricados por ela, com atenção ao desempenho e ao custo acessível para o público entusiasta.

Ainda assim, seu grande objetivo permanece: viver exclusivamente do automobilismo. A cada evento, a pilota conquista não só posições, mas visibilidade — condição essencial para atrair patrocínios e inspirar novos talentos.

“Não quero só correr. Quero deixar um legado, abrir portas. Quero que outras pessoas, que se achavam distantes do automobilismo, vejam que é possível estar aqui também”, afirma.

O Track Day & Time Attack: onde tudo começa


O evento do dia 22 não é apenas uma competição: é um terreno fértil para revelações, reencontros com a velocidade e testes reais em condições de pista. Aberto ao público e com vagas para amadores e profissionais, o Track Day & Time Attack se tornou um dos principais pontos de encontro de apaixonados por performance automotiva.

É ali que, como diz Carol, “começa o sonho de muita gente”. Foi ali que o dela ganhou forma, e é ali que ela seguirá acelerando.

Carol Nunes acelera seu Ford Fusion de corrida em Interlagos, durante um Track Day. O carro, desenvolvido por ela mesma, é o único modelo do tipo em competição no mundo. Foto- Humberto da Silva
Carol Nunes acelera seu Ford Fusion de corrida em Interlagos, durante um Track Day. O carro, desenvolvido por ela mesma, é o único modelo do tipo em competição no mundo. Foto- Humberto da Silva

 

Primeira mulher trans a competir no automobilismo brasileiro, Carol construiu sozinha o carro com que compete, símbolo de resistência, inovação e representatividade no esporte. Foto - reprodução Carol Nunes
Primeira mulher trans a competir no automobilismo brasileiro, Carol construiu sozinha o carro com que compete, símbolo de resistência, inovação e representatividade no esporte. Foto – reprodução Carol Nunes

 

Fonte: MT Press 

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