Profissional da Ficar de Bem reforça a importância do acompanhamento psicológico e social durante todo o processo
Assim como toda nova relação, a adoção, um dos gestos mais bonitos de amor e empatia, também exige tempo, paciência e preparo emocional. Mas, em alguns casos, o processo pode não acontecer como o esperado e a convivência traz desafios para ambas as partes. Por isso, não é tão difícil encontrar casos de crianças que, depois de adotadas, são ‘devolvidas’, um processo doloroso que rompe novamente os vínculos emocionais e reabre feridas profundas.
Para a psicóloga da Ficar de Bem, Aline Nonato, instituição social voltada à proteção integral e à defesa dos direitos de crianças, adolescentes, mulheres, idosos e pessoas em situação de vulnerabilidade, a ‘devolução’ pode ocorrer por diferentes motivo, incluindo falta de preparo emocional dos adotantes, expectativas irreais sobre o comportamento da criança, dificuldades de adaptação ou ausência de acompanhamento profissional adequado após a adoção. “É um processo que exige maturidade, paciência e muito amor. Adotar não é apenas um ato de generosidade, é um compromisso de vida”, explica.
Para se ter uma ideia, segundo dados divulgados em 2024 pelo Sistema Nacional de Adoção e Acolhimento do Conselho Nacional de Justiça, de cada 100 crianças adotadas no Brasil, uma média de nove têm o processo de adoção desfeito. Foram 24.673 crianças e jovens adotados no país desde 2019. Desse total, 8,9% tiveram registros de devoluções.
“Muitas dessas crianças vêm de histórias marcadas por perdas e precisam de tempo para se sentir seguras novamente. Uma realidade completamente normal. Por isso, é tão importante um olhar sensível e o apoio contínuo de psicólogos e assistentes sociais”, reforça.
Quando uma ‘devolução’ acontece, as consequências, segundo Aline, são graves, principalmente, as psicológicas. A criança volta ao abrigo com sentimentos de abandono, rejeição e culpa, além de um aumento na dificuldade de confiar novamente em adultos. “Essas crianças vivenciam um novo rompimento afetivo. Muitas vezes, internalizam a ideia de que não são dignas de amor, e isso impacta seu desenvolvimento emocional e social”, acrescenta a profissional.
Para evitar que situações assim se repitam, Nonato reforça a necessidade de um acompanhamento integral, sendo ele psicológico, pedagógico e social, tanto das crianças quanto das famílias adotantes. O apoio técnico durante todo o processo é fundamental para preparar emocionalmente todos os envolvidos e garantir que o vínculo se construa de forma saudável e duradoura.
“Quando há diálogo, orientação e acompanhamento, as chances de sucesso da adoção aumentam significativamente. O amor é essencial, mas o preparo também é, pois ali está se formando uma nova família, com pessoas de cultura, traumas e vivências diferentes”, finaliza a psicóloga.
Aline ainda reforça que a ‘devolução’ de um filho adotado após a sentença de adoção é considerada um ato ilícito civil e, em casos extremos, pode configurar o crime de abandono de incapaz, sujeito a sanções como indenização por danos morais e, eventualmente, prisão. “A adoção é irrevogável no Brasil, pois a lei não prevê a possibilidade de devolução de uma criança adotada, tratando o vínculo adotivo com a mesma força do vínculo biológico”, pontua. A psicóloga ainda destaca que este comportamento, crescente na sociedade, perpassa fatores como a idealização de crianças e adolescentes perfeitas e gratas, devido ao processo de adoção, ignorando fatores naturais do desenvolvimento e somatória dos históricos de vida traumáticos que elas vivenciaram, bem como a ausência de preparo e responsabilidade afetiva dos pretendentes.
| Sobre Ficar de Bem A Ficar de Bem é uma organização não governamental, sem fins lucrativos e sem vínculos políticos ou religiosos, que há 36 anos defende os direitos e oferece apoio integral a crianças, adolescentes e suas famílias, além de idosos, mulheres e pessoas em situação de rua, vítimas de violência física, psicológica, sexual e negligência. Fundada em 1988 como CRAMI – Centro Regional de Atenção aos Maus Tratos na Infância do ABCD – pelo pediatra Emílio Jaldin Calderon, a instituição atualmente é presidida pelo empresário Evenson Robles Dotto e conta com núcleos de atuação em Santo André, São Bernardo do Campo e Diadema. Com 18 serviços voltados para prevenção, acolhimento e suporte social, além de coordenar o Bom Prato na região do ABC, a instituição mantém parcerias com o poder público – Prefeitura de Santo André, de São Bernardo e Diadema – que possibilitam a ampliação e sistematização do atendimento, rompendo ciclos de violência e promovendo relações de cuidado e respeito. Reconhecida por sua transparência e eficiência, a Ficar de Bem possui certificações e prêmios e é declarada Utilidade Pública em níveis municipal, estadual e federal, atuando conforme o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) e o Sistema Único de Assistência Social (SUAS), reafirmando seu compromisso com uma sociedade justa e igualitária. Além disso, a instituição está pelo terceiro ano consecutivo na lista das 100 melhores ONGs do Brasil.
Fonte: Maxima SP |


