Enfim, o sonho se torna realidade!

Final de semana de F1 era mais uma oportunidade que o brasileiro tinha para acompanhar uma corrida e vitória de Ayrton Senna, mas este domingo era diferente, era o domingo em que Ayrton corria diante de sua torcida no Autódromo de Interlagos, em seu país, em São Paulo, sua cidade natal.

Ayrton tinha um retrospecto ruim correndo no Brasil, fosse em Jacarepaguá, no Rio de Janeiro, fosse em São Paulo, desde o ano de 1990, quando a F1 retornou à cidade de São Paulo.

Atual bicampeão mundial de F1, Ayrton estava empatado com 27 vitórias com o tricampeão mundial Jackie Stewart, mas algo ainda lhe faltava, um tabu que ainda não fora quebrado e que ainda o incomodava, que era vencer diante de sua torcida, vencer uma corrida de F1 no seu país.

Aquele histórico 24 de Março de 1991, 3 dias após seu aniversário de 31 anos, Ayrton não quis festa de aniversário, ele queria como presente poder vencer um GP de F1 em sua casa diante do seu público.

Desde que Ayrton estreou na equipe McLaren, em 3 de Abril de 1988, no Grande Prêmio do Brasil, no circuito de Jacarepaguá, ele fez todas as poles até então, em 1988 com 1:28:096, em 1989 com 1:25:302, em 1990 com 1:17:277. Mesmo tendo feito as poles, a vitória insistia, teimava em não acontecer, pois em 1988 o câmbio deu problemas na largada, em 1989 bateu na largada e em 1990 bateu em Satoru Nakajima no Bico de Pato.

Em 1991, treino classificatório, Ayrton estava atrás do italiano Ricardo Patrese da Williams, que tinha a pole provisória com 1:16:775, com apoio da torcida, que lotou Interlagos, Senna cravou a pole com 1:16:392 e conquistou o direito de largar na posição de honra em Interlagos.

Na largada, Senna largou bem e manteve a ponta, e assim foi durante toda a corrida, sendo perseguido sempre de perto pelo Leão, o inglês Nigel Mansell, carro número 5 da Williams. Porém, como todos lembramos bem, Nigel Mansell era extremamente arrojado, porém, bastante afoito e atraplhado, e em Interlagos não foi diferente para o inglês, que rodou sozinho e abandonou a prova em Interlagos.

Ayrton tinha pouco mais de 40 segundos para o italiano Ricardo Patrese, companheiro de Mansell na Williams, com a Williams número 6, ate então tudo parecia caminhar para uma vitória tranquila de Senna, parecia, pois tudo com Senna tinha que ter uma dose extra e forte de emoção e de dramaticidade.

A McLaren de Senna começou a apresentar problemas de câmbio, Senna foi perdendo marchas durante o trecho final da prova, aquela vantagem de mais de 40 segundos começou a ser pulverizada, à medida que os problemas na McLaren se seguiam e Patrese, já ciente dos problemas de Senna, passou a acelerar e tirar por volta de 3 segundos.

Será que depois de tanto esforço, tanta luta, mais uma vez este dia não ia dar em nada? O sonho da vitória seria novamente adiado? Quem conhecia bem Ayrton Senna sabia que ele por nada entregaria esta vitória, ele pensava “Poxa, eu já ganhei tantas vezes, fui campeão, mas ainda não ganhei no meu país para o meu povo. Vai ter que dar, vai ter que chegar em primeiro! Ele é maior do que tudo e Deus vai me dar esta vitória”!

A cada volta que passava a vantagem de Senna para Patrese ia caindo, 15 segundos, 12 segundos, 6 segundos, na penúltima volta Ayrton com um esforço sobre humano conseguiu virar uma volta com tempo quase igual de Patrese, e na transmissão, Reginaldo Leme disse ” Esta volta foi muito importante, foi a volta que o Senna pode ter ganho a corrida”!

A chuva aumentava em Interlagos, a torcida na arquibancada pedindo para Mihaly Hidasy (Diretor de prova húngaro do Grande Prêmio do Brasil) terminar logo a prova. Quando Senna passou na reta dos boxes Mihaly fez o sinal com a mão de 1 volta, era a volta final, apenas mais 4325 metros separando Ayrton da tão esperada e sonhada vitória em casa.

Senna rasgando pelas retas e curvas de Interlagos, apontando para o céu na reta oposta como se já comemorasse a vitória, Patrese seguia cada vez mais de perto, mas desta vez nada tiraria de Senna o gosto de uma vitória em casa, diante de sua torcida. Com muito esforço, carro com o câmbio preso na 6ª marcha, com apenas uma marcha, cruza a linha de chegada a apenas 3 segundos de vantagem sobre Patrese.

A vitória de Senna enfim chegava, o tabu estava quebrado, a maldição de correr em casa estava vencida, Interlagos vindo a baixo com a vitória de Senna! Ayrton Senna quebrava dois tabus de uma só vez: De vencer em casa e de superar as 27 vitórias do escocês tricampeão mundial, Jackie Stewart.

Ayrton aos berros no carro comemorou sua vitória: AAAAAAAH EU FALEI! EU NÃO ACREDITOOOOO! AAAAAHH PQP!!!!!! A torcida na reta oposta no setor G, o mais popular, o setor do povão em Interlagos gritava a plenos pulmões ” E dá-lhe Senna! E dá-lhe Senna! OLÊ OLÊ OLÊ”! A Mc Laren de Senna enfim parou de vez na reta oposta, não aguentou a volta da vitória, os fiscais se abraçavam e comemoravam esta vitória em casa, deixando de lado qualquer tipo de protocolo.

Ayrton foi levado aos boxes pelo Safety Car, chegando aos boxes, absurdamente estressado fisicamente, foi recebido pelo bicampeão mundial de F1, Emerson Fittipaldi, e pir seu pai, o Sr Milton da Silva. Ao ver o pai, Ayrton diziabem alto “Vem cá, pai! Vem cá, pai! Vem Cá! Só encosta, só encosta! Me dá um beijo”!

Ayrton chega ao pódio esgotado fisicamente, carregando a bandeira braisleira que tantas vezes ele carregou pelo mundo em suas vitórias, mas esta com gosto especial, erguendo o verde e amarelo no pódio diante de sua torcida, na cidade onde naceu, na pista onde ele começou a cortrer de kart. Lá estava ele no degrau mais alto do pódio comemorando sua vitória no Grande Prêmio do Brasil de F1. No pódio foi recebido por Bernie Ecclestone, chefão da F1, Patrese cumprimentou Ayrton e Ayrton dizia “Hey, just my shoulder” ” Ei, só o meu ombro”! Ele dizia isso tamanhas as dores que ele sentiu nas voltas finais em segurar um carro com câmbio manual com apenas 1 marcha.

Enquanto Senna comemorava sua vitória, jorrava o champanhe, a torcida no setor A, arquibancada descoberta em Interlagos alternava entre o grito de É CAMPEÃO! É CAMPEÃO! É CAMPEÃO! e o famoso canto de OLE OLE OLE OLA SENNA SENNA!

Cerimônia de pódio concluída, GP Brasil de 1991 consumado com Ayrton Senna da Silva como vencedor. Chegando em casa na Av Nova Cantareira, a caminho da Estrada da Roseira, Zona Norte de São Paulo, uma multidão foi ver Ayrton e comemorar a vitória, e ele não decepcionou, subiu no muro de casa e foi comemorar com a galera a vitória em Interlagos.

Foi assim que Ayrton Senna da Silva, nosso eterno e inesquecível Ayrton Senna do Brasil venceu há 35 anos pela primeira vez o Grande Prêmio do Brasil de F1 e de onde ele tirou a famosa frase ” Quando vejo que cheguei ao meu limite, descubro que tenho forças para ir além”!

 

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10 comentários em “Grande Prêmio do Brasil 1991 – A 1ª vitória de Ayrton Senna no Brasil”

  1. Grande matéria de Marcelo Maranello, que, como sempre, nos coloca dentro do autódromo comemorando com o nosso grande ídolo. Parabéns!

  2. Uma corrida interminável, aqueles últimos minutos não acabavam nunca, que sofrimento… Mas quem viveu esse dia, jamais esquecerá do nosso Eterno Ayrton Senna da Silva!

  3. Faltava um ano antes de eu nascer mas em 31/05/1992 quando eu nasci, vim ao mundo quando o Senna ganhou no GP de Mônaco. Esse sim uma reportagem de respeito do Marcelo “Wikipédia” Maranello, você é demais!

  4. Agradeço ao meu amigo Marcelo Maranello por sempre compartilhar seus conhecimentos com a sua super memória! Como sempre, texto muito bem escrito!
    Forte abraço MarceMito san 👏

  5. É incrível como a memória e o legado do nosso Bécão permanece vivo na memória de todos. Ele sempre será lembrado, e eu só tenho que dar parabéns a sua página e a vc Maranello, que sempre lembra da história do automobilismo e do Nosso Becão com muito amor e carinho.

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