Por Bibiana Matte*
Como pesquisadora e fundadora de uma empresa brasileira de biotecnologia, observo diariamente um dos maiores desafios do mercado de saúde e bem-estar global: o desenvolvimento de inovações ainda é refém de um processo extremamente longo, caro e, estruturalmente, impreciso. Criar uma nova molécula (seja para um medicamento revolucionário, um ativo cosmético inovador ou um nutracêutico) exige anos de pesquisa aplicada e investimentos que facilmente rompem a barreira dos bilhões de dólares. No entanto, o maior gargalo desse modelo tradicional da indústria não é o tempo ou o dinheiro em si, mas a sua alta taxa de falha.
Hoje, cerca de 90% dos compostos que as empresas aprovam em etapas pré-clínicas tradicionais acabam reprovados quando chegam aos ensaios com seres humanos. O motivo? Toxicidade imprevista ou falta de eficácia real. Para nós, que dedicamos a vida a desenvolver inovação na bancada do laboratório, esse cenário evidencia um fato biológico inescapável: os métodos convencionais do passado não são espelhos fiéis da complexidade humana. Ratos de laboratório não são minihumanos. A resposta não está em insistir nas velhas fórmulas, mas em transformar a metodologia de pesquisa por meio da biotecnologia.
A corrida global para reproduzir o corpo humano em laboratório já começou. E não falo aqui de criar órgãos complexos para transplantes no curto prazo, mas de construir plataformas de testes de altíssima fidelidade biológica. Essa virada é sustentada por metodologias in vitro avançadas, apoiadas em dois pilares da ciência contemporânea: a engenharia tecidual tridimensional e os sistemas organ-on-a-chip (órgãos em um chip).
O mercado internacional já entendeu o peso financeiro dessa disrupção. Dados da consultoria Global Market Insights apontam que o setor de organ-on-a-chip deve manter um crescimento anual superior a 32%, impulsionado pelo investimento agressivo das indústrias em predição biológica. Quem quer competir no topo precisa errar menos e mais rápido.
Durante décadas, a pesquisa farmacêutica e biomédica dependeu de células cultivadas em placas de plástico planas. O problema biológico fundamental é que uma célula isolada e achatada não se comporta como um tecido vivo integrado ao nosso organismo. A engenharia de tecidos mudou o jogo ao permitir o cultivo dessas estruturas em matrizes tridimensionais. Em nossa rotina laboratorial, por exemplo, já reconstruímos com precisão a arquitetura de modelos de pele humana e do intestino, mimetizando suas camadas e barreiras naturais.
O salto tecnológico mais fascinante, contudo, acontece quando incorporamos a microfluídica. Os dispositivos organ-on-a-chip utilizam polímeros transparentes com microcanais internos revestidos por células humanas vivas. Neles, a mecânica da vida acontece em tempo real. Conseguimos reproduzir o fluxo sanguíneo contínuo, a pressão hidrostática e até as contrações mecânicas de um intestino de forma perfeitamente controlada. É a biologia humana pulsando fora do corpo.
Para os setores cosmético, farmacêutico e nutracêutico, o impacto prático é transformador. Quando avaliamos a segurança ou a eficácia de um novo produto diretamente em um modelo de pele reconstruída ou em um chip, entregamos respostas celulares específicas da nossa espécie. Compostos ineficazes ou potencialmente perigosos são descartados logo na largada da pesquisa. Isso reduz drasticamente a necessidade de estudos em humanos em etapas preliminares e gera uma economia massiva de tempo e recursos para as companhias.
Sempre defendo que a consolidação dessas novas abordagens representa, fundamentalmente, uma decisão por uma ciência melhor e mais ética. Modelos baseados em biologia humana entregam dados humanos precisos.
Como cientista e empreendedora no Brasil, acredito que temos a maturidade intelectual, técnica e regulatória para liderar essa transição na América Latina. A convergência entre a nossa pesquisa aplicada de ponta e o dinamismo da biotecnologia nacional nos permite criar essas soluções complexas aqui mesmo, sem depender da importação de inteligência.
O futuro da inovação segura e eficiente na saúde será moldado dentro de biofábricas e chips de silicone. As indústrias que estão adotando essa tecnologia atualmente fazem muito mais do que otimizar o seu P&D, elas estão liderando o novo e inevitável padrão de excelência científica no mundo.
*Bibiana Matte é fundadora e CEO da Núcleo Vitro, doutora em Patologia Bucal e pesquisadora em biotecnologia e engenharia tecidual.
Fonte: Like Leads


