Por Prof. Alessandro Soares do CPP
Os números têm a capacidade de transformar aquilo que muitos insistem em tratar como percepção em uma realidade impossível de ser contestada. E os dados mais recentes obtidos por meio da Lei de Acesso à Informação (LAI) sobre os afastamentos de professores da rede estadual paulista por transtornos mentais e comportamentais cumprem exatamente esse papel: revelam uma crise que já ultrapassou os limites individuais e se tornou um problema estrutural da educação.
Em 2025, foram registrados 33.309 afastamentos favoráveis de professores efetivos da Secretaria da Educação do Estado de São Paulo relacionados a transtornos mentais e comportamentais, classificados no Capítulo V da CID-10. Apenas no primeiro trimestre de 2026, já haviam sido contabilizados 6.256 afastamentos pelo mesmo motivo.
Embora os dados não permitam identificar quais transtornos são mais frequentes, eles são suficientes para demonstrar que o adoecimento emocional dos docentes deixou de ser um episódio isolado. Trata-se de um fenômeno recorrente, com impactos diretos na qualidade do ensino, na continuidade do aprendizado dos estudantes e na própria sustentabilidade da carreira docente.
É importante compreender que esses números não surgem por acaso. O professor brasileiro convive diariamente com uma combinação de fatores que desgastam sua saúde física e emocional: violência dentro das escolas, desrespeito à autoridade pedagógica, sobrecarga de trabalho, cobranças cada vez maiores por resultados, excesso de burocracia, falta de profissionais de apoio e uma crescente sensação de desvalorização da profissão.
Nos últimos anos, acompanhamos uma escalada preocupante de casos de agressões físicas, ameaças, intimidações e episódios de violência psicológica contra educadores. Cada ocorrência amplamente divulgada representa centenas de outras que sequer chegam ao conhecimento da sociedade. Muitas vezes, o professor continua trabalhando mesmo emocionalmente abalado, até que o organismo simplesmente não suporta mais.
Quando um docente precisa ser afastado por questões relacionadas à saúde mental, toda a comunidade escolar sente os efeitos. Os alunos perdem continuidade pedagógica, as equipes precisam reorganizar o funcionamento da unidade e o Estado assume custos que poderiam ser reduzidos por meio de políticas preventivas.
É preciso mudar a lógica de atuação. Ainda investimos muito mais em lidar com as consequências do adoecimento do que em evitar que ele aconteça.
Isso passa, necessariamente, por fortalecer programas permanentes de saúde mental para os profissionais da educação, ampliar equipes multiprofissionais nas escolas, reduzir fatores de estresse ocupacional, garantir ambientes mais seguros e estabelecer protocolos eficazes para enfrentamento da violência escolar. Também significa reconhecer que cuidar do professor não é um benefício corporativo, mas um investimento direto na aprendizagem dos estudantes.
Outro ponto que merece reflexão é a necessidade de ampliar a transparência dos dados públicos. A própria resposta fornecida via Lei de Acesso à Informação informa que não existe um relatório consolidado capaz de detalhar quais transtornos mais acometem esses profissionais. Conhecer melhor esse cenário permitiria desenvolver políticas públicas mais direcionadas, eficientes e baseadas em evidências.
Não há educação de qualidade sem professores saudáveis. Valorizar o magistério vai muito além de discursos ou homenagens em datas comemorativas. Significa criar condições reais para que o educador possa exercer sua missão com segurança, equilíbrio emocional e dignidade.
Os mais de 33 mil afastamentos registrados em um único ano não representam apenas estatísticas administrativas. Cada número corresponde a um profissional que precisou interromper sua atividade porque sua saúde chegou ao limite. Ignorar esse cenário significa comprometer o presente e o futuro da educação pública.
A saúde mental dos professores precisa deixar de ser tratada como um problema individual para ser reconhecida como uma prioridade de toda a sociedade.
**Alessandro Soares do CPP é pedagogo, advogado e especialista em educação.
Fonte: Assessoria de Imprensa


