Com direção de Denise Stoklos e Alessandra Maestrini e dramaturgia construída com a psicanalista Renata Zambonelli, o espetáculo de teatro físico aborda a cisão entre homem e natureza, o niilismo em relação à crueldade humana em contraste com alguma possibilidade de esperança, travando um diálogo com uma dura questão contemporânea: a angústia climática. Temporada paulistana vai de 18 de setembro a 11 de outubro, no Teatro Mínimo.
Em julho de 2026, o ator, diretor e dramaturgo João Paulo Lorenzon voltou ao Festival de Avignon, na França, e se tornou o primeiro artista brasileiro a assinar, numa mesma edição do evento, o protagonismo de um espetáculo e a direção de outro: atuou em Do Cavalo Nada Sabemos e dirigiu Nunca se tem tanta força como quando não se tem força nenhuma, com Julia Setubal, inspirada no universo de Sarah Kane. Dez anos antes, ele havia se apresentado no festival com Nijinsky – Minha Loucura é o Amor da Humanidade, montagem em que interpretava o papel-título e dividia a cena com mais quatro atores.
Depois da passagem por Avignon, Do Cavalo Nada Sabemos estreia em São Paulo, no Teatro Mínimo do Sesc Ipiranga, com temporada de 18 de setembro a 11 de outubro. As sessões são às sextas-feiras, às 21h, e aos sábados e domingos, às 18h30.
Repercussão na imprensa francesa
Em cartaz no Théâtre LaScierie, em Avignon, o espetáculo teve boa recepção na crítica francesa.
O site Classique en Provence, destaca: “Com energia inesgotável e total entrega física, João Paulo Lorenzon apresenta um solilóquio no qual a distinção entre homem e cavalo se dissolve (…) Uma performance enigmática e fascinante.”
Já o Journal La Terrasse escreveu que “o ator brasileiro explora as bases da loucura e da violência em uma performance que se destaca pela potência do diálogo com os sentidos e a fisicalidade (…) A experiência sensorial que ele constrói dilui a fronteira entre o animal e o humano, explorando formas alternativas de existir no mundo.”
Trajetória e motivação
Com três décadas de atuação no teatro, Lorenzon enxerga a criação cênica como um desdobramento da sensibilidade cultivada desde a infância e vinculada à memória de sua avó. “O teatro recupera o que foi perdido”, define o artista. Para ele, o ato de atuar e o de dirigir integram o mesmo processo criativo: “É a mesma conversa conduzida dos dois lados ao mesmo tempo: aquele que recebe e aquele que estende a mão”.
Sinopse: o enigma de Turim como ponto de partida
A dramaturgia de Do Cavalo Nada Sabemos toma como ponto de partida o episódio ocorrido em 3 de janeiro de 1889, na Piazza Carlo Alberto, em Turim. Ao ver um cocheiro espancando o animal, o filósofo Friedrich Nietzsche se atirou ao pescoço do cavalo para protegê-lo, chorou e, a partir daquele momento, entrou em colapso mental definitivo.
A montagem usa essa cena para investigar violência, culpa e o desejo de reparação. A peça trata a separação entre natureza e cultura como um erro de origem da civilização e defende que é preciso libertar a vida dos pontos em que ela ainda está presa à conduta humana.
Niilismo e antropoceno
A construção textual contou com a colaboração da psicanalista Renata Zambonelli. A parceria expandiu o fato histórico de 1889 para uma reflexão contemporânea sobre o Antropoceno (a era geológica marcada pelo impacto da atividade humana sobre o planeta) e sobre a ansiedade climática.
“Transpusemos essa cena para o presente para abordar a travessia do niilismo. Atualmente, muitos jovens vivenciam uma completa impotência diante da ameaça de extinção”, explica Renata Zambonelli. “A proposta da peça é indicar uma alternativa para que o ser humano saia da culpa neurótica e do papel de dominador, enxergando o outro e reconhecendo-se integrado a tudo o que existe.”
Matrizes filosóficas, artísticas e a cenografia
O processo de pesquisa da dramaturgia incorporou referências do cinema e da literatura, como o filme O Cavalo de Turim, de Béla Tarr; o longa-metragem polonês Eo, de Jerzy Skolimowski; e o conceito de “homem do subsolo”, de Fiódor Dostoiévski, personagem marcado pelo isolamento, pela amargura e pela autoconsciência.
A principal matriz teórica da montagem é o pensamento da bióloga e filósofa norte-americana Donna Haraway, para quem humanos e não humanos precisam aprender a coabitar e coexistir em um planeta ferido.
“A influência de Donna Haraway acentua a dimensão política do trabalho, convidando a habitar as zonas de fronteira entre as espécies”, pontua Zambonelli. Essa premissa inspirou o elemento cenográfico central, concebido por Dominic Kiessling: uma estrutura inflável e amorfa, semelhante a formas orgânicas e águas-vivas primordiais, que produz em cena um jogo de fusão e separação entre o corpo do ator e o espaço.
Abertura do texto e a técnica do “corpo cindido”
A estrutura dramatúrgica inicial baseou-se em uma obra ampla elaborada por Denise Stoklos, que mapeava manifestações históricas de opressão contra mulheres, indígenas e populações negras. Lorenzon optou por abstrair as citações diretas para ampliar as possibilidades de projeção do espectador.
“Retirei palavras que fixavam sentidos específicos porque pretendo que cada pessoa imagine o cavalo que quiser”, explica João Paulo Lorenzon. “A base apontava para as feridas da dominação. Ao torná-la abstrata no palco, sustento essa estrutura que trata da devastação ambiental, mas permito também que o espectador acorde as marcas subjetivas gravadas no próprio corpo, e evoque, por exemplo, a dinâmica de uma relação afetiva, algum objeto pessoal que se encontre em estado de terra devastada.”
Em cena, essa tensão traduz-se no que o ator denomina “corpo cindido”: “Um braço bate enquanto o outro implora que pare. Um lado executa a força, o outro se horroriza com essa ação. As costas ardem com o golpe, mas o ombro de quem bate também se contunde”, detalha o intérprete. A técnica expõe a violência como algo que atravessa o próprio indivíduo que tenta barrá-la.
Direção conjunta: Denise Stoklos e Alessandra Maestrini
A encenação reúne a linguagem do Teatro Essencial de Denise Stoklos e a pesquisa vocal e interpretativa de Alessandra Maestrini.
“O trabalho corpóreo dialoga diretamente com a trajetória de Denise Stoklos. A direção dela trouxe uma presença enérgica e o rigor do corpo vivo em cena”, relata Lorenzon. “Alessandra Maestrini contribuiu com as gradações emocionais, as nuances dos sons da palavra e as variações de tom.”
Alessandra Maestrini descreve a dinâmica do espetáculo: “O público é posicionado no centro dessa arena. Quando o ator se golpeia, a plateia testemunha uma entrega física que expõe suas próprias questões internas.”
Denise Stoklos destaca a condução do processo: “Acompanhei o desenvolvimento do ator, desde os debates conceituais com os criadores até os ensaios práticos. É uma curadoria de intenções centrada na presença do corpo no palco.”
Vontade de potência e transformação
A direção levou o ator a explorar o contraste entre a “vontade de potência” nietzschiana e a destrutividade. A montagem faz trabalhar o pensamento do filósofo para pensar conflitos contemporâneos.
Levada ao esgotamento, a estrutura de dominação se implode, e daí emerge uma delicadeza possível: ao reconhecer sua limitação diante da violência contra o animal, o personagem transforma força bruta em consciência. “A imagem final do cavalo convida o espectador a exercer sua potência sem a necessidade de destruir o outro”, conclui Lorenzon.
Ficha técnica:
Concepção, dramaturgia e atuação: João Paulo Lorenzon.
Inspirado na obra e vida de: Friedrich Nietzsche.
Direção: Denise Stoklos e Alessandra Maestrini.
Codramaturgia: Renata Zambonelli.
Desenho de luz: Wagner Freire.
Objeto cenográfico: Dominic Kiessling.
Figurino: Leandro Castro.
Preparação contínua do ator: Isabel Setti.
Preparação corporal: Toshiko Oiwa.
Provocação corporal: Lu Favoreto
Preparação circense: Kiko Caldas.
Direção de movimento de chicote: Karina Bredariol.
Preparação física: Leandro Marques.
Integração estrutural: Fábio Sayão.
Fotografia, foto do cartaz e vídeo: Maurizio Mancioli.
Fotos divulgação: Priscila Prade.
Visagista fotos Priscila Prade: Everton Soares
Identidade visual: Kelly Vaneli.
Social Media: Jessica Christina.
Direção de produção: Deco Gedeon.
Produção associada e assessoria jurídica: Raul Mahfuz.
Diretriz de produções internacionais: Julia Gomes.
Assessoria de imprensa: Vira Comunicação (Maurício Barreira e Leonardo Pichonelli).
Produção: Companhia Espaço Mágico
Realização: Sesc São Paulo
Serviço
Do Cavalo Nada Sabemos
Temporada: de 18 de setembro a 11 de outubro de 2026. Não haverá sessão no dia 4 de outubro.
Horários: sextas-feiras, às 21h; sábados e domingos, às 18h30. Sessão extra, 1 de outubro, quinta, às 21h
Local: Sesc Ipiranga – Auditório
Endereço: Rua Bom Pastor, 822 – Ipiranga, São Paulo – SP
Telefone: (11) 3340-2000
Informações e ingressos: sescsp.org.br/ipiranga
https://www.sescsp.org.br/unidades/ipiranga/
Duração: 50 minutos
Classificação indicativa: 16 anos
Fonte: Maurício Barreira – Vira Comunicação


