No mês do Professor, histórias de uma pedagoga recém-formada e de um ex-tatuador mostram diferentes percursos até a sala de aula, em um cenário de preocupação com a renovação docente

Lara Miranda, de 25 anos, decidiu cursar Pedagogia ainda no ensino médio, motivada pela possibilidade de acompanhar o desenvolvimento das crianças. Gabriel Ferreira encontrou na formação de novos tatuadores uma primeira experiência com o ensino, antes de trocar de profissão e chegar à sala de aula. Neste Dia do Professor, suas trajetórias mostram diferentes caminhos para a docência, em um momento em que atrair e manter novos profissionais se tornou um dos desafios da educação brasileira.

Recém-formada em Pedagogia, Lara está à frente de uma turma do 5º ano do ensino fundamental na Escola Mais, unidade Vila Andrade, em São Paulo. Antes de assumir sua primeira turma, trabalhou como monitora e auxiliar de sala durante a faculdade, experiências que fortaleceram seu interesse pela profissão.

“Quando eu ainda estava no ensino médio, percebi como é importante ter um olhar cuidadoso sobre a infância, momento em que nos desenvolvemos e aprendemos sobre nós e sobre o mundo. Escolhi a Pedagogia por acreditar que é possível respeitar o desenvolvimento das crianças e jovens, acolhendo seus sentimentos e emoções”, conta.

Para Sandra Vieira, diretora das unidades Vila Andrade e Vila Sônia da Escola Mais, o acompanhamento nos primeiros anos de atuação ajuda o professor a ganhar segurança. No caso de Lara, a passagem por outras funções permitiu conhecer a rotina escolar, observar o trabalho de diferentes educadores e participar das atividades em sala antes de assumir uma turma.

A diretora também acompanhou a trajetória de Gabriel, de 44 anos, que chegou à escola como monitor Maker após trabalhar durante anos como tatuador. Hoje, ele leciona Artes na unidade Vila Sônia. Tanto Gabriel quanto Lara estão na instituição desde de 2022.

“Os dois foram construindo sua trajetória aqui, conhecendo a escola, os alunos e a nossa forma de fazer educação, até assumirem suas turmas. Como diretora, é muito gratificante acompanhar esse crescimento, ver como foram se desenvolvendo profissionalmente e conquistando seu espaço e o reconhecimento dos alunos”, afirma Sandra.

Da tatuagem à sala de aula

Gabriel se formou em licenciatura em Artes em 2024 e encontrou na educação um novo caminho depois de anos trabalhando com tatuagem, atividade em que já conciliava criação artística, domínio de técnicas e formação de outras pessoas.

Além de atender clientes, ele capacitava novos artistas no ofício. Essa experiência proporcionou um contato com o ensino antes de sua chegada à escola.

“Os anos como tatuador me ensinaram muito sobre a escuta, o cuidado, a técnica e a responsabilidade com o próximo. Além disso, eu também capacitava novos artistas no ofício e já vivenciava a prática docente dessa forma”, conta.

A atuação na escola ampliou sua percepção sobre as exigências do trabalho docente. Além de ensinar os conteúdos, a rotina envolve planejamento, preparação, gestão da turma e adaptação das atividades às situações que surgem em sala de aula.

Nas aulas de Artes, Gabriel utiliza referências de história da arte, iconografias e mitologias que também fizeram parte de seu trabalho na tatuagem. Esse repertório ajuda a aproximar os conteúdos do universo dos estudantes.

Formação e permanência na carreira

As trajetórias de Lara e Gabriel se desenvolvem em um cenário de preocupação com a renovação do quadro de professores. Dados da pesquisa “Apagão dos Professores: o desafio da renovação dos professores no Brasil”, do Instituto Semesp, ligado ao Sindicato das Entidades Mantenedoras de Estabelecimentos de Ensino Superior no Estado de São Paulo, mostram que, entre 2015 e 2025, o total de professores no ensino médio passou de aproximadamente 523 mil para 557 mil. Nesse mesmo período, porém, o número de docentes de até 24 anos caiu 31,1%, enquanto o de profissionais com 60 anos ou mais cresceu 104,5%, indicando um envelhecimento do quadro docente.

Na formação de novos profissionais, o número de concluintes dos cursos de licenciatura recuou 13,5% entre 2015 e 2024.

Outro indicador do levantamento é a Taxa de Renovação Docente, que relaciona o número de professores de até 24 anos ao de profissionais com 60 anos ou mais. Essa proporção caiu de 0,95, em 2015, para 0,32, em 2025: passou de quase um docente jovem para cada professor da faixa mais velha a aproximadamente um para cada três.

Para Gabriel, a valorização influencia a decisão dos jovens de seguir na educação. “Acredito que a desvalorização, tanto financeira quanto moral, influencia diretamente o futuro da profissão. São necessárias novas ideias e abordagens que aproximem o novo professor das dinâmicas reais da escola atual, além de capacitação contínua e valorização da carreira”, afirma.

As trajetórias de Lara e Gabriel mostram que a carreira docente ainda desperta o interesse dos jovens, seja como primeira escolha profissional ou como um novo caminho após outras experiências de trabalho. Em um cenário de preocupação com a renovação do quadro de professores, essas histórias ajudam a compreender o que os aproxima da escola e como encontram seu lugar na profissão.

Fonte: Like Leads

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